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05 Abril de 2020 | 13h04 - Actualizado em 05 Abril de 2020 | 13h38

Covid-19 e a higienização das mãos

Luanda - A higienização das mãos, para prevenir infecções por vírus e bactérias, nunca foi tão valorizada pelo mundo, como se vê desde o aparecimento repentino da Covid-19.

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Alunos lavam as mãos com água e sabão na província do Bengo

Foto: Adão João Pedro

Ponto de higienização das mãos, na Av. Pedro de Castro Vandunem-Loy, em Luanda

Foto: Miguel Faztudo

(Por Elias Tumba)

O surgimento da pandemia do novo milénio, com um raio avassalador de contágio e mortes em massa, faz mudar, de forma radical, os hábitos e costumes do ser humano.

Numa altura em que a humanidade está à beira do maior colapso já visto desde a II Guerra Mundial e sem soluções imediatas para travar a proliferação deste vírus silencioso, invisível e letal, não resta outro caminho senão a prevenção.

Para "fugir" da pandemia da Covid-19, muitas soluções científicas têm vindo a ser ensaiadas, em laboratórios de referência, mas, há cinco meses, a cura é ainda só um sonho.

Desprovidos de vacinas para enfrentar o "indigesto" Coronavírus, os governos de todo mundo lutam para escapar de uma dura encruzilhada: salvar a economia ou os seus cidadãos?

Diante desse quadro sombrio, torna-se imperiosa a conjugação de esforços, que passam pelo isolamento social e pela permanente higienização individual e colectiva.

É nesse prisma que a lavagem das mãos se afigura um dos melhores e mais eficientes "remédios" ao dispor da humanidade, nessa sua dura, difícil e mega luta pela sobrevivência.

No actual cenário de incertezas e temores, até os menos atentos e relutantes encaram esse simples gesto social, muitas vezes ignorado, como  autêntica "tábua de salvação".

A julgar pelos números de casos positivos que se multiplicam pelo mundo, não há dúvidas de que só com essa e outras medidas de biossegurança, será possível vencer este inimigo comum.  

A higienização das mãos com água e sabão, álcool simples ou em gel é, nesta altura, um trunfo de que todos devem fazer recurso, sobretudo em Angola, para travar a pandemia.

Trata-se de um gesto muitas vezes apontado por especialistas como o mais importante para controlar infecções nos serviços hospitalares, mas nem sempre observado à risca.

Aliás, um breve recurso à história mostra-nos que as manifestações de preocupação com a necessidade de higienização das mãos na assistência médica se iniciaram no século XI, quando Maimonides defendeu a lavagem desses órgãos pelos praticantes de medicina.

Todavia, por vários séculos, esses hábitos não passaram de rituais de purificação, evidenciando-se mais os cuidados com a aparência do que a preocupação com a saúde.

Mesmo em meados do Século XIX, quando Semmelweis produziu a primeira evidência científica de que a higienização das mãos poderia prevenir doenças, esta prática não foi compreendida em sua importância e tampouco aceite pelos profissionais da época.

A relutância a esse gesto durou centenas de anos e já teve repercussões graves, num passado mais recente, em Estados endémicos e com deficientes sistemas de saneamento.

É caso para se dizer que, durante séculos, a questão da lavagem das mãos e sua capacidade de prevenir doenças foi ignorada por muitas sociedades, incluindo profissionais de saúde.

Entretanto, desde Dezembro último, altura em que se revelou o Coronavírus, tem vindo a mudar substancialmente a forma como a humanidade olha para a questão dos cuidados de higiene pessoal e colectiva, particularmente com as mãos.

Da Europa à América, da África à Ásia, o lema hoje é lavar as mãos com água e sabão, álcool em gel ou ficar confinado em casa, para reduzir o raio de infecções.

Apesar da luta comum, o mundo está, efectivamente, em "queda livre", com economias até então robustas em risco de colapsar. Por mais que não se queira admitir, só restam três caminhos para se evitar a catástrofe mundial: reforçar a higienização, ser disciplinados e descobrir a vacina.

Com o Coronavírus, os Estados estão impotentes e quase num beco sem saída, pelo que, diante desse cenário de pânico, lavar as mãos de forma contínua e reduzir contactos dos dedos com a boca, os olhos e o nariz afiguram-se medidas de extrema importância.

Mas, afinal, porquê falar em lavagem das mãos como alternativa de "primeira linha", quando o mundo está dotado de cientistas e recursos técnicos e científicos de ponta?

A resposta a essa inquietação é simples: a vacina para erradicar o novo vírus ainda pode levar algum tempo até ser aplicada em humanos e abranger a todos os cantos do mundo.

Enquanto se ensaiam fórmulas "mágicas" em laboratórios apetrechados, a lavagem das mãos é, sem dúvida, a principal "arma" dos Estados contra a pandemia.

Não é por acaso que essa medida tem sido amplamente incentivada pelos governos, sendo que, em Angola, afigura-se uma das principais para se contornar a Covid-19.

A higienização das mãos é de extrema importância para prevenção de infecções e a medida primordial contra a propagação dos micro-organismos, nos hospitais e não só.

A adoção dessa prática tem ainda mais relevância, porque grande percentual de infecções bacterianas pode ser evitada com esse simples gesto, uma vez que a maioria dos micro-organismos está associada à microbiota transitória das mãos.

Dito de outro modo, a microbiota adquirida pelo contacto com pessoas ou materiais colonizados ou infectados, poderia ser facilmente eliminada através de uma adequada lavagem, deixando de ser condição básica para a sua disseminação.  

É certo que, no caso do Coronavírus, não só é válida a lavagem das mãos com água e sabão, como podem associar-se outros produtos de higiene para prevenir a contaminação.

A substituição de água e sabão por substâncias à base de álcool também se apresenta como alternativa para diminuir eventuais lesões causadas pela lavagem frequente das mãos.  

Mas como fazer a correcta higienização das mãos, para que esse processo possa resultar em um cada vez menos número de pessoas infectadas por Covid-19?

Conforme a literatura médica, a higienização consiste na fricção manual de toda a superfície (punhos e dedos), com água e sabão, por pelo menos 30 segundos.

Com isso, é possível remover a maior quantidade de microrganismos da microbiota transitória e residente, como pelos, células descamativas, suor, sujidade e oleosidade, daí ser esta a principal acção para prevenir a transmissão cruzada de microrganismos.

No caso de África, em geral, e de Angola, em particular, a lavagem das mãos com água e sabão torna-se tão importante quanto necessária, dada a facilidade de colocar o sabão nas mãos de todos, incluindo os mais carenciados, ao contrário do álcool em gel.

Mas isso impõe desafios urgentes ao Governo, que precisa de rever em tempo recorde a estratégia de distribuição de água potável, principalmente nas comunidades periféricas.

Afinal, como falar em lavagem permanente das mãos com água e sabão se, pelo país,  milhares de cidadãos continuarem desprovidos desse produto vital?

É certo que, nesse cenário adverso da Covid-19, as autoridades do país tudo fazem para distribuir água ao maior número de cidadãos, por via da rede pública ou de cisternas.

Trata-se de uma medida tão necessária, quanto determinante para manter a população protegida e evitar que o vírus penetre em força nas comunidades, por falta de recursos básicos.

Angola tem dado respostas eficientes para conter a proliferação da Covid-19, com a adoção de medidas políticas que podem ajudar a confinar o vírus a pequenos grupos, mas é utópico pensar que, com a escassez de água, seja possível evitar contaminações.  

Diante desse dilema, é imperioso que o Governo redobre esforços para melhorar o abastecimento de água às comunidades e aumente as campanhas de sensibilização para o uso racional do produto, numa altura em que a margem para erros é quase zero.  

O Governo não pode falhar na sua missão de prestar serviços básicos e essenciais ao povo, como medicamentos, alimentos e água potável, para salvar o país da hecatombe.

Só com essa conjugação de esforços, Angola sairá vitoriosa dessa guerra contra o Coronavírus, que já infectou 10 cidadãos no país e resultou em dois óbitos.

Nessa fase complexa, o país precisa da união e da solidariedade de todos, acima de tudo dos meios indispensáveis para a "batalha". A água é um dos principais recursos dessa luta.

Sem esse produto ao dispor dos mais pobres, será impossível higienizar o corpo e pôr em prática um velho "slogan" que o cantor Pedrito do Bié musicou, para alertar a sociedade sobre a necessidade dos cuidados preventivos: "lava lava, lava lava, com água e sabão…".

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